cavalo e a armadura eram cinza, mas no manto
trazia o ondulado azul e vermelho de Correrrio, e um
brilhante peixe negro trabalhado em ouro e obsidiana prendia
as dobras do manto ao ombro do homem.
- Quem quer passar o Portão Sangrento? - ele gritou.
- Sor Donnel Waynwood, com a Senhora Catelyn Stark e seus
companheiros - respondeu o jovem cavaleiro.
O Cavaleiro do Portão ergueu o visor.
- Bem que a senhora me parecia familiar. Está longe de casa,
pequena Cat.
- Tal como o senhor, tio - disse ela sorrindo, apesar de tudo
por que passara. Voltar a ouvir aquela rouca voz de fumo a
levava de volta vinte anos, até os dias da sua infância.
- Minha casa está às minhas costas - disse ele rudemente.
- Sua casa está no meu coração - disse-lhe Catelyn. - Tire o
elmo. Quero voltar a ver seu rosto.
- Temo que os anos não o tenham melhorado - disse Brynden
Tully, mas quando ergueu o elmo Catelyn viu que mentia.
Tinha as feições enrugadas e gastas, e o tempo roubara-lhe o
tom ruivo do cabelo e deixara-o apenas grisalho, mas o sorriso
era o mesmo, tal como as espessas sobrancelhas, grossas como
lagartas, e o riso em seus olhos, de um azul profundo.
- Lysa soube que vinha?
- Não houve tempo para enviar a notícia - disse-lhe Catelyn.
Os outros aproximavam-se atrás dela. - Temo que
cavalguemos à frente da tempestade, tio.
- Peço autorização para entrar no Vale - disse Sor Donnel. Os
Waynwood estavam sempre prontos para a cerimônia.
- Em nome de Robert Arryn, Senhor do Ninho da Águia,
Defensor do Vale, Verdadeiro Protetor do Leste, convido-os a
entrar livremente e encarrego-os de manter a paz - respondeu
Sor Brynden. - Venham.
E assim Catelyn o seguiu por sob a sombra do Portão
Sangrento, onde uma dúzia de exércitos se desfez em pedaços
durante a Era dos Heróis. Do outro lado das fortificações, as
montanhas abriam-se de súbito numa paisagem de campos
verdejantes, céu azul e montanhas de cumes nevados que a
fez ficar sem respiração. O Vale de Arryn, banhado na luz da
manhã.
Estendia-se à sua frente, até as névoas do leste, uma terra
tranquila de rico solo negro, rios lentos e largos e centenas de
pequenos lagos que brilhavam como espelhos ao sol,
protegida por todos os lados pelos picos que a aconchegavam.
Nos seus campos crescia alto o trigo, o milho e a cevada, e
nem mesmo em Jardim de Cima as abóboras eram maiores ou
os frutos, mais doces do que ali. Estavam na extremidade
ocidental do vale, onde a estrada de altitude ultrapassava a
última passagem de montanha e começava a sinuosa descida
até as terras planas, duas milhas mais abaixo. O Vale ali era
estreito, não tinha mais de meio dia de viagem de largura, e
as montanhas setentrionais pareciam tão próximas que
Catelyn quase podia estender a mão e tocá-las. Erguendo-se
acima de todos encontrava-se o pico escarpado chamado
Lança do Gigante, uma montanha que até as montanhas
obrigava a olhar para cima, com o cume perdido em névoas
geladas três milhas e meia acima do fundo do vale. Pela sua
maciça vertente ocidental corria a torrente fantasmagórica
conhecida como Lágrimas de Alyssa. Mesmo daquela
distância Catelyn distinguia o brilhante fio prateado, uma
linha clara na rocha escura.
Quando o tio percebeu que ela parara, aproximou o cavalo e
apontou.
- Fica ali, junto às Lágrimas de Alyssa. Tudo o que se vê
daqui é um lampejo branco de vez em quando, se se olhar
com atenção e o sol bater nas paredes da maneira certa.
Sete torres, dissera-lhe Ned, como punhais brancos atirados
na barriga do céu, tão altas que, ao se subir aos parapeitos e
olhar para baixo, vê-se as nuvens.
- A viagem demora quanto tempo? - ela perguntou.
- Podemos chegar ao sopé da montanha ao cair da noite -
disse Tio Brynden -, mas a subida demorará mais um dia.
A voz de Sor Rodrik Cassei soou vinda de trás.
- Senhora - disse -, temo que não possa avançar mais hoje -
tinha o rosto abatido sob as novas barbas irregulares, e
parecia tão cansado que Catelyn temeu que caísse do cavalo.
- Nem deve fazê-lo - ela disse. - Já fez cem vezes mais do que
eu poderia pedir. Meu tio me acompanhará o resto do
caminho até o Ninho da Águia. O Lannister tem de vir
comigo, mas você e os outros devem descansar aqui e
recuperar as forças.
- Será uma honra tê-los como hóspedes - disse Sor Donnel
com a grave cortesia dos jovens. Do grupo que partira com
ela da estalagem junto ao entroncamento, além de Sor
Rodrik, só Bronn, Sor Willis Wode e o cantor Marillion
restavam.
- Senhora - disse Marillion, fazendo o cavalo avançar. - Peço-
lhe permissão para acompanhados até o Ninho da Águia,
para que possa assistir ao fim da história como assisti ao seu
início - o rapaz parecia fatigado, mas estranhamente
determinado; tinha um brilho febril nos olhos.
Catelyn nunca pedira ao cantor que os acompanhasse; era
uma escolha que ele próprio tinha feito, e não saberia dizer
como tinha conseguido sobreviver à viagem quando tantos
homens mais corajosos jaziam mortos e esperando por seus
enterros na estrada. E, no entanto, ali estava, com uma
barbinha 